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domingo, 30 de setembro de 2007

em Finisterre..

Ao chegar em Finisterre fui direto ao albergue, peguei o certificado que caminhei até Finisterre (o “fim do mundo”), e esperei os meninos para seguirmos até o Cabo de Finisterre.. deixei alguma coisa para “marcar” a cama e seguimos caminhando com as mochilas nas costas.. um pouco mais vazias, mas com as mochilas.. enquanto esperava o Pupilo e a Mascote, troquei sms com o Damien, que ficou me esperando no Cabo.. 

Quando vi o Cabo pela primeira vez, ao chegar em Finisterre pela praia, havia uma grande nuvem negra no seu cume.. naquele momento que retomamos o Caminho, o cenário era o mesmo.. a nuvem continuava pousada sobre o Cabo, o que nos deixou receoso sobre a queda de um temporal na ida ou na volta..  sentíamos somente vento forte e frio.. no entanto, como já nos sentíamos verdadeiros peregrinos, não nos abalou em nada..


Num dos extremos do Cabo, fizemos juntos um dos rituais realizados por peregrinos no fim do Caminho: queimar alguma coisa que fosse importante para cada um.. que relembrasse uma passagem.. que simbolizasse algo de valor, de superação, de passagem, de transgressão, ou, de falta de valor, etc. 

Portanto, queimei alguns objetos que guardei no caminho para esse propósito.. entre eles, a gaze da atadura que a médica (de sobrenome Erro) tinha feito em mim no primeiro dia do Caminho.. para mim, representava todas as dores do Caminho.. tanto físicas, como espirituais e psicológicas.. mentalizei muitas coisas boas pro futuro, muitas lembranças boas do passado, a auto-motivação que tive que criar no meio do Caminho – enfim, o Recomeço!



Ocorreu também uma coisa engraçada: as duas meninas mais místicas ou “espirituais” que encontrei pelo Caminho, às quais chamava de Brujita I e II falaram comigo naquele exato  momento.. seria mais outra casualidade do Caminho?

Almodena, a Brujita I ;), ligou-me pois sabia que eu poderia estar já em Finisterre.. e Ana, a Brujita II, ligou ao Pupilo que me passou o telefone quando eu falava com a Almodena.. foi muita energia junta, com uma Brujita num ouvido e a outra no outro..

Maktub!

R

Oliveiroa - Finisterre

Despertei às 5h45' para preparar as coisas já que no dia anterior tinha dormido mais tarde.. eu estava no primeiro piso da casa e escutava o barulho do vento como se quisesse abrir todas as portas e janelas da casa.. impressionante! desci para o banheiro mas a curiosidade de ver como estava o tempo foi mais forte e abri a porta da casa.. surpreendentemente, chovia pouco e ventava menos do que parecia..

Saímos pelas 6h40' e pegamos a chuva desde o início do Caminho.. sugeri que fôssemos pela estrada e não pelos bosques nos primeiros dois quilômetros, pois poderíamos nos perder na imensa escuridão sem consegui enxergar as flechas com a chuva e vento atrapalhando.. já víamos mas não escutávamos vários raios.. e caminhar naquela chuva significava perigo: caminhar próximo de árvores e ainda com dois bastões de alumínio seriamos mesmo potenciais peregrinos-pára-raios ;).. por outro lado, os meninos (Charlie e Martica, pois o David ficou dormindo..), ficaram reticentes por causa do vento que faria na estrada e do perigo dos automóveis..


Para completar, quando saímos do albergue, não sabíamos em que direção estava o Caminho.. informação básica que peregrinos experientes como nós deveriam saber ou buscar na noite anterior.. após uns 200 ou 300 m, passou um carro e perguntei ao motorista onde estava o Caminho.. ele foi bastante simpático e nos informou que a estrada estava logo adiante e que para tomarmos o Caminho deveríamos voltar ao albergue e seguir na outra direção.. decidimos, então, seguir pela estrada mesmo.. ou seja, o acaso nos guiado para a estrada..

A chuva fina continuava e não incomodava muito.. contudo, quando deixamos a cidade e as ruas protegidas do vento pelas casas, sentimos a força das rajadas de vento.. seguimos com atenção aos carros, sinalizando com as lanternas, e cada vez mais encharcados com a chuva contínua que mudava sempre de direção de acordo com o vento.. passamos por um bar que tinha uma placa (em inglês) informando que o próximo bar estaria a 15 km dali.. já tínhamos caminhado quase 4 km e pensei ser uma publicidade enganosa para estrangeiros (como tinha visto antes em Burgos).. também vi no mapa que levava ao pescoço que haveriam povoados pelo Caminho..  1 km depois, passamos pelo cruzamento onde o Caminho bifurcava para Muxía ou Finisterre.. eu estava crente que deveria seguir pela direita, mas as setas indicavam o contrário.. ali percebi que eu estava errado, pois o mapa não tinha a parte final até Finisterre (ou Muxía).. eu apenas tinha deduzido (erradamente) que o Cabo Finisterre ficava mais a norte que Muxía.. Neste momento, percebemos que o aviso do bar poderia ser mesmo verdadeiro e que poderíamos ficar sem comida quente durante mais 15 km.. e só chovia e chovia.. tivemos que ponderar se estávamos em boas condições e preparados com alimentos e água.. certificamos que as barras energéticas, frutos secos e chocolate dariam pra todos e decidimos "arriscar" adiante.. na chegada a Burgos, eu já tinha caminhado 20 km em jejum, então sabia que poderia aguentar.. era nosso último dia de Caminho e algo me dizia que não estaríamos naquela situação durante todo o dia, como no dia anterior..

No entanto, logo o dia ficou mais tenebroso com a chuva que não parava, e o frio que aumentava paulatinamente.. e ficamos naquele pesadelo por mais 6 km, quando os primeiros raios de Sol surgiram em nosso dia.. pelas nove e pouco da manhã.. e com a luz do dia também veio mais uma certeza: de que não há tempestade, sem bonança.. e para nós, isso ocorreu "literalmente" :)


Dali em diante o Caminho foi um passeio..


Apesar da dureza das subidas e descidas, e da extensão daquela última etapa perfazendo um total de 35 km..

Assim que acabou a chuva, começamos a escutar o barulho do mar e logo depois o vimos pela primeira vez.. desse ponto em diante, o Caminho ficou ainda mais bonito sempre servido com o mar ao lado.. o mesmo mar que representava o fim do mundo conhecido na Idade Média..

Na chegada em Finisterre, decidi seguir o Caminho pela praia.. eu já vinha sozinho há algum tempo e foi uma sensação muito boa chegar pela areia da praia.. também me dei conta que estava terminando o Caminho como o comecei: nos primeiros treinos, fiz algumas caminhadas pelas praias do Algarve em Portugal.. em especial, uma insólita viagem de quase 18 km entre Olhos d'Água e a Ilha de Faro, narrada no início desse blogue.. a grande diferença foi a sensação de chegada: naquele treino, foi cheia de percalços, enquanto que agora, tinha gosto de regozijo e glória.. 





Para encerrar com chave de ouro, ao acercar-me da cidade, vieram duas peregrinas em minha direção e começaram a bater palmas ao me verem suado, só de bermuda e blusa, enquanto elas estavam cheias de casaco e frio.. sorri e também aplaudi a elas..

Muitos peregrinos fazem esta parte do Caminho de ônibus ou carro alugado.. também vale a pena, mas não é a mesma coisa.. afinal, como dizia o aviso no refúgio de Manjerin:

no pain, no glory” ;)


E melhor recepção à Costa da Morte que aquela não poderia pedir nem imaginar!

R

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Carrión de los Condes - San Nicolas del Real Camino

Hoje foi mais uma prova de que as fases do Caminho não podem ser tao previsíveis . amanheci bastante preocupado com as bolhas nos calcanhares.. mas como tinha feito um curativo na noite anterior com os algodoes de maquiagem, indicados por Loli, tinha tudo pra dar certo.. Acontece que no dia anterior dormi com as pernas um pouco inclinadas pra cima e durante a noite, e logo no inicio da manha, acordei com fortes dores no músculo ignal (se eh que esse o nome), perto da virilha.. resultado: não teve musica que eu cantasse pra espantar esta dor.. os primeiros 4 km foram infernais.. parando de 500 em 500 metros para me agachar e aquecer um pouco os músculos da coxa esquerda..

A beleza das paisagens, a solidão e a paz que emanavam dos campos de trigo ajudaram a esquecer um pouco a dor.. mas só depois de um telefonema muito especial e, dessa vez, começar a cantar sem um dos fones de ouvido, escutando minha própria voz, e, aliado a tudo isso, ter tomado um relaxante muscular (logico! ;), consegui finalmente superar as dores.. curiosamente, a dor da coxa fez eu esquecer das bolhas e, depois de superada, retomei o ritmo e completei os 30 km previstos até San Nicolas..


Antes de San Nicolas, alcancei o grupo que tinha partido comigo pela manhã quando faziam uma pausa no albergue que as "meninas" de Viñarós iam ficar.. ali pousamos pra esta foto antológica..

R

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Boadilla del Camino - Carrión de los Condes

Nesta etapa comecei a verificar que as 3 fases do Caminho (sofrimento físico até Burgos, autoconhecimento de Burgos ate Leon e espiritualismo de Leon ate Santiago) não são tão certas assim.. nesta etapa sofri um bocado as dores das minhas duas novas bolhas - uma em cada calcanhar..


Logo na porta do albergue está localizado um dos mais famosos Rollos Jurisdiccionales que, à semelhança dos pelourinhos nos quais amarravam os escravos no Brasil, aqui acorrentavam os ladrões e assassinos para serem punidos em praça pública..

Quando saí do albergue já eram mais 8h da manhã, um pouco tarde para o ritmo de um peregrino.. mas não tive outra alternativa pois precisava fazer umas "almofadas" para as bolhas com o algodão de maquiagem da Loli.. enquanto o tempo e o meu corpo ainda estavam frios, foi bastante difícil.. mas logo tive a ideia de colocar música no MP3, pois "quem canta seus males espanta".. e a maior coincidência (ou sinal do Caminho) foi ver que a primeira musica da biblioteca era a do J Quest, na qual o refrão dizia "ei dor, eu não te escuto mais! você  não me leva a nada.." e não eh que deu certo ;) comecei a cantar esta e outras.. relembrar também de outras pessoas queridas e pronto: esqueci que tinha bolhas nos pés..




Talvez o frio no inicio da manhã tenha sido mais forte porque andamos os primeiros quilômetros ao lado de um rio.. eu estava sozinho e a beleza da paisagem me fez logo esquecer a temperatura..










Nesta etapa encontrei algumas igrejas feitas com tijolos de barro, o que era novidade até esta parte do Caminho..










O curioso foi descobrir uma imagem de Nossa Sra da Conceição numa das destas igrejas.. de imediato pensei em minha irmã Rose que nasceu no dia 8 de Dezembro, seu dia santo.. desde ali, enviei bons fluidos pra ela..

Logo em seguida, em Villalcazar de Sirga, encontramos a igreja de Santa Maria de la Blanca.. uma igreja-fortaleza templária onde se encontram os túmulos de dois reis espanhóis e de um dos fundadores da Ordem dos Templários..












Em Villalcazar tambem reencontrei o Eloi e a Loli.. tomamos uma cerveja e retomei o Caminho com eles.. no entanto, como eu estava com as bolhas, achei melhor andar mais devagar e deixá-los a seu ritmo.. quando via os dois se distanciarem de mim surgiu uma placa que me encheu de ânimo: mais 2 etapas e eu chegaria na metade do Caminho, ultrapassando a marca simbólica de haver caminhado 400 km a pé . procurei o MP3 e comecei a cantar sozinho de novo.. passaram uns ciclistas por mim, com um olhar raro e depois comentaram sobre mim ao Eloi e à Loli: "hay cada loco en el Camino.." :) eles não viram que eu tava com fones de ouvido nem eu me apercebi que, com o vento, quem estava a uns 50 m à minha frente poderia escutar eu cantando partes das musicas - todo desafinado como eu mesmo.. rimos muito quando me contaram esta..

Pelas 15h cheguei em Carrión de los Condes.. busquei o albergue das freiras (monjas) e lá encontrei as "meninas" de Viñarós novamente..

R